CAÇA À BALEIA





Homens em terra, com binóculos, ocupam-se das vigias em busca de baleias no horizonte. Uma vigia construída em quadrado na beira de uma ravina, de onde se vislumbra o mar numa grande amplitude. Por vezes, os vigias espreitam dias e dias sem se vislumbrar qualquer animal.

Muitos homens do campo dedicam-se às suas tarefas. Aguardam o sinal que poderá tornar as suas vidas melhores – numa economia agro-pecuária muito débil. A passagem dos cachalotes pode ser muitas vezes demorada. Um dia, o vigia dava o sinal – com um búzio ou com um foguete que estala no ar. A corrida para o calhau é espavorida, atropelada, muitos deixam a meio os seus afazeres no campo ou na vila. Mal há tempo para uma breve despedida das mulheres e filhos e um mal amanhado sinal da cruz ao passar em frente à igreja. Os mais velhos ficam de olhos fixos no mar para observarem os esguichos das baleias a resfolgar. Os miúdos acompanham os pais até à praia. As mulheres, porém, continuam na vida do campo ou da casa, de corações inquietos. Na sua memória, casos de um ou outro desastre, de um ou outro morto. Alguns dos homens nem levam de casa um pouco de pão, seguem para a dura faina do mar de estômagos vazios.

Arreados os botes, até os cães ficam na praia a ladrar. O esforço dos homens no mar é dobrado daquele que fazem na labuta da terra. Os botes, depois de ultrapassarem as ondas da costa, começam a deslizar. A sua velocidade só pode ser símbolo de uma boa jornada. Contudo, as baleias mudam de rumo e o vigia retira a bandeira. Os botes põem-se a fazer um círculo, até que o vigia hasteie novamente a bandeira. Estão no rumo certo – e avançam.

As baleias, lá bem longe, flutuam segundos e mergulham naquele mar bonançoso, mas que, de um momento para o outro, pode pôr-se rijo. Os botes continuam a deslizar com velocidade. O objectivo é aproximar-se da baleia, sem ruído. O trancador (arpoador) de pé, com os pés bem firmes, vai à proa de arpão em punho. Porém, quem dá as ordens é o mestre. Numa posição firme e de arremesso, o trancador observa o alvo, à espera de atingir a baleia num sítio crucial. O animal depois de arpoado deve sangrar bem.

Está tudo calado e ansioso, ninguém diz palavra inútil: homens, barco, arpoador e arpão, tudo tem o mesmo corpo e a mesma alma. São sete, à caça do monstro. Todos ganham: uma baleia dá muito óleo e o óleo dá muito dinheiro. Às vezes dá âmbar. Já outras canoas de aproximam. Mas, antes que lhe tirem a baleia, o trancador lança o ferro. O bicho tem um momento de hesitação e surpresa, como o touro quando lhe cravam a bandarilhas, o que permite ao barco desviar-se numa remada, antes de ser abafado na cauda ou envolvido no redemoinho das ondas. Não há um segundo de dúvida ou movimento falso. A baleia mergulha entre as vagas, com o risco de os arrastar para o fundo, e leva-os numa velocidade de expresso, pelo mar fora, porque aquela grande massa é de uma agilidade espantosa. E lá vão no curso entre as águas rasgadas, no grande sulco aberto com violência tomando tento na linha. A baleia mergulha. Corre agora linha de manilha americana, muito bem enrolada dentro de duas selhas, e os homens pálidos e imóveis, com o coração do tamanho de uma pulga, esperam. A baleia pode desaparecer durante vinte minutos. Às vezes a linha acaba-se quando a baleia mete muito para o fundo. Se está outro barco perto, fornece-lhe mais linha, senão a baleia perde-se: têm de cortar a manilha ou são arrastados para o abismo. A arça é o fim da linha, e é com pena que eles a vêm acabar-se. Passam a ponta de mão em mão, até ao último tripulante, que só larga com desespero. Mas em geral a baleia mergulha, vem à tona antes que se acabe a linha, e o que ela mostra primeiro é o focinho, para resfolgar. Aproxima-se e dão-lhe uma lançada ao pé da asa para a sangrarem. Mergulha, reaparece, esgotam-na e têm-na certa quando começa a esguichar sangue pelas ventas.

[Quando se refere aqui “baleia” aceite-se este termo como a designação ge